Blog


Amor, Estranho amor: A Simpatia por Ladrões
Em diferentes momentos da história e em diversas sociedades, um fenômeno curioso — e preocupante — insiste em se repetir: a simpatia de parte da população por figuras envolvidas em crimes, como ladrões ou políticos corruptos. Seja nas redes sociais, em rodas de conversa ou até em manifestações públicas, não é raro encontrar quem relativize, justifique ou até admire comportamentos que, em tese, prejudicam a coletividade.
Especialistas apontam que esse tipo de postura pode ter múltiplas origens. Uma delas é a descrença nas instituições. Quando parcelas da sociedade passam a enxergar o sistema político e judicial como ineficaz ou injusto, surge uma tendência de minimizar os atos ilícitos — especialmente quando praticados por figuras vistas como “próximas” ou “representativas” de determinados grupos.
Outro fator relevante é o chamado “viés de identificação”. Pessoas tendem a defender ou passar pano para indivíduos com quem compartilham valores, origem social ou posicionamentos ideológicos. Nesse contexto, o crime deixa de ser analisado objetivamente e passa a ser interpretado sob uma lente emocional ou tribal. O corrupto “do meu lado” muitas vezes é visto como vítima de perseguição, enquanto o adversário é automaticamente condenado.
Há também o papel da cultura e da narrativa. Filmes, músicas e até noticiários frequentemente romantizam figuras fora da lei, transformando criminosos em personagens carismáticos ou anti-heróis. Embora esse recurso tenha valor artístico, ele pode influenciar a percepção pública, especialmente quando não há um contraponto claro sobre as consequências reais desses atos.
No campo político, a situação se agrava. Casos de corrupção, que deveriam gerar indignação generalizada, acabam sendo tratados com seletividade. Pesquisas de opinião já indicaram que parte do eleitorado está disposta a ignorar denúncias, desde que o político em questão entregue benefícios ou represente suas crenças. Essa lógica utilitarista enfraquece princípios básicos da democracia, como a ética e a responsabilidade pública.
Para estudiosos do comportamento social, o problema não está apenas nos indivíduos que cometem crimes, mas também na tolerância coletiva que permite sua permanência em espaços de poder ou prestígio. “Quando a sociedade normaliza o erro, ela reduz o custo moral de praticá-lo”, afirmam analistas.
Combater esse tipo de distorção passa, inevitavelmente, pela educação e pelo fortalecimento institucional. Incentivar o pensamento crítico, valorizar a ética e garantir transparência nos processos públicos são passos fundamentais para reduzir a condescendência com práticas ilegais.
No fim das contas, a simpatia por ladrões e corruptos não é apenas um reflexo de falhas individuais, mas um sintoma de desequilíbrios mais profundos na relação entre sociedade, justiça e política. E enquanto esse fenômeno persistir, os prejuízos tendem a ser coletivos — ainda que, por vezes, passem despercebidos no calor das paixões.


Arte que se ajoelha para o governo
Em um país onde a cultura historicamente resiste como trincheira crítica, cresce um fenômeno preocupante: artistas que trocam independência por conveniência, convertendo suas vozes em instrumentos dóceis de quem ocupa o poder. Não se trata de apoio institucional legítimo — essencial para a sobrevivência de muitos projetos culturais —, mas de algo mais sutil e, por isso mesmo, mais corrosivo: a adesão interessada, a bajulação travestida de engajamento, a arte que abandona o questionamento para abraçar a propaganda.
O problema não está no financiamento público em si. Políticas culturais são necessárias e devem existir. O que causa estranheza é o silêncio seletivo de certos artistas diante de abusos, contradições e falhas do governo que os financia. Aqueles que antes erguiam bandeiras críticas tornam-se, de repente, complacentes — ou pior, entusiastas — quando seus projetos passam a depender de editais, verbas ou convites oficiais.
Essa dinâmica cria uma distorção perigosa. A arte, que deveria ser espaço de liberdade, experimentação e confronto de ideias, passa a operar dentro de limites invisíveis. Não é preciso censura formal quando existe autocensura. Não é necessário calar vozes à força quando elas mesmas escolhem falar apenas o que agrada. O resultado é uma produção cultural domesticada, previsível, muitas vezes vazia de potência transformadora.
Há, evidentemente, artistas que mantêm sua integridade mesmo dentro desse sistema. Mas o que se observa com frequência é a construção de uma rede de conveniências: elogios públicos em troca de visibilidade, silêncio em troca de financiamento, alinhamento ideológico como moeda de troca. Nesse cenário, a crítica se torna rara — e, quando surge, costuma vir de quem está fora do circuito privilegiado.
O impacto vai além do campo artístico. Quando a cultura se curva, a sociedade perde um de seus principais espelhos. Sem artistas dispostos a tensionar o poder, a esfera pública empobrece. O debate se torna raso, a pluralidade diminui, e o cidadão passa a consumir narrativas cada vez mais homogêneas.
É preciso fazer uma distinção clara: receber apoio não é o problema; submeter-se a ele, sim. A independência artística não se mede pela origem do recurso, mas pela liberdade de pensamento que o acompanha. Quando essa liberdade é negociada, o que se perde não é apenas a credibilidade do artista — é a própria função social da arte.
No fim das contas, a pergunta que permanece é incômoda, mas necessária: até que ponto vale o patrocínio, se o preço é a própria voz.
Humilhação no Senado: rejeição ao STF expõe um governo à deriva


A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal pelo Senado Federal do Brasil não foi apenas uma derrota — foi uma humilhação política em praça pública. O placar de 42 votos contra e 34 a favor não deixa margem para relativizações: trata-se de um governo que perdeu o controle, a autoridade e, sobretudo, o respeito dentro do Congresso.
Não existe leitura branda para um episódio dessa magnitude. Indicações ao STF são, historicamente, terreno seguro para qualquer governo minimamente organizado. Quando nem isso se sustenta, é porque a base ruiu. O que se viu foi um Executivo incapaz de mobilizar apoio, refém de sua própria desarticulação e ignorado por parlamentares que, em tese, deveriam sustentá-lo.
O Senado não apenas rejeitou um nome — expôs a fraqueza do governo de forma brutal. A votação escancarou um cenário de insubordinação política, em que aliados votam contra, acordos não são cumpridos e a liderança do Planalto simplesmente não se impõe. É o retrato de um governo desgastado, isolado e cada vez mais irrelevante nas decisões centrais do país.
E não se trata de um tropeço qualquer. Rejeições desse tipo são raríssimas na história institucional brasileira. O que ocorreu foi uma quebra de paradigma — e, ao mesmo tempo, um recado inequívoco: o governo não comanda mais o jogo político. Foi vencido, exposto e desmoralizado.
As consequências são inevitáveis. Um governo que não consegue aprovar sequer uma indicação ao STF entra em campo enfraquecido para qualquer pauta futura. Cada votação passa a ser um risco, cada negociação um custo mais alto, cada derrota potencialmente mais devastadora.
O episódio de ontem não foi apenas uma derrota. Foi a confirmação de um processo: o de um governo que já não lidera, não articula e não convence — apenas reage, acuado, à própria perda de força.
Lula em Queda Livre: Duas Derrotas Seguidas no Senado


A derrubada do veto presidencial ao chamado “PL da dosimetria” pelo Congresso, com aval decisivo do Senado, escancara uma nova e contundente derrota política do governo nesta semana — a segunda em sequência e, possivelmente, a mais simbólica.
Na sessão conjunta realizada nesta quinta-feira (30), parlamentares impuseram uma derrota direta ao Palácio do Planalto ao rejeitar o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O placar foi expressivo: 49 senadores votaram pela derrubada, contra apenas 24 pela manutenção, consolidando a reversão da decisão presidencial .
O projeto trata da dosimetria das penas — ou seja, das regras que definem como o Judiciário calcula o tempo de prisão. Com a derrubada do veto, o texto aprovado pelo Congresso passa a valer, alterando critérios que podem impactar diretamente condenações relacionadas, inclusive, aos atos de 8 de janeiro .
Segunda derrota em poucos dias
O revés ocorre menos de 24 horas após outra derrota significativa do governo no Senado: a rejeição da indicação de um nome ao Supremo Tribunal Federal, em uma votação que expôs fissuras na base aliada. O resultado — com votos de parlamentares que tradicionalmente apoiam o governo — já havia acendido o alerta sobre a fragilidade da articulação política no Congresso .
Agora, com a derrubada do veto, o cenário se agrava. Não se trata apenas de uma divergência pontual, mas de um movimento consistente do Legislativo em impor derrotas consecutivas ao Executivo.
Governo sob pressão
Nos bastidores, a leitura é clara: o governo enfrenta dificuldades crescentes para manter coesão entre aliados e garantir apoio em votações estratégicas. A ampla margem na derrubada do veto — superando com folga o mínimo necessário — evidencia que a base governista já não responde de forma automática às orientações do Planalto.
Além disso, o episódio reforça o protagonismo do Congresso, especialmente do Senado, que demonstra capacidade de reorganizar maiorias e contrariar o Executivo mesmo em temas sensíveis.
Enfraquecimento político
A sequência de derrotas sinaliza um governo pressionado e com menor capacidade de articulação. Quando indicações estratégicas são barradas e vetos presidenciais são revertidos em sequência, o recado político é direto: o controle da agenda já não está nas mãos do Executivo.
Mais do que um episódio isolado, a derrubada do veto da dosimetria se soma a um conjunto de movimentos que apontam para um enfraquecimento do governo no Congresso — um cenário que tende a impactar diretamente as próximas votações e a governabilidade nos meses seguintes.
